Na qualidade de membro da Assembleia Municipal de Águeda, recebi, na semana passada, um convite para a inauguração da Biblioteca Municipal Manuel Alegre, no próximo Sábado, dia 16 de Outubro. O programa, para além da recepção aos convidados, da cerimónia de inauguração e da visita guiada, inclui ainda o Concerto Polifónico “Alma”, no Cine-Teatro São Pedro.

Perante o referido convite, confesso que ainda hesitei na minha estupefacção. Para tirar quaisquer dúvidas, consultei o site da Câmara Municipal de Águeda, onde confirmei que “A Biblioteca Municipal Manuel Alegre, abriu as portas no dia 1 de Setembro de 2009, num moderno edifício instalado junto ao Fórum Municipal da Juventude”. Pois bem, mais de um ano após a abertura ao público, a Câmara Municipal organiza uma espécie de “re-inauguração” oficial da Biblioteca. Será que foi para celebrar a (quase) interminável conclusão dos arranjos exteriores?

Continuando a navegação no site da autarquia, fiquei a saber mais pormenores sobre o programa. O site informa que “um dos momentos altos da cerimónia, para além do descerramento da placa inaugural, será certamente a doação por Manuel Alegre do manuscrito da sua obra Alma, relato íntimo da sua vila de Águeda”, e que o programa incluirá actuações da Fanfarra Kaustica, da associação Com.Cenas, da Banda Marcial de Fermentelos, de alguns elementos da Banda Nova de Fermentelos e da Orquestra Filarmónica 12 de Abril, da mezzo-soprano Margarida Reis, e que “a produção conta também com a participação em palco dos grupos corais do Concelho de Águeda: Associação Cultural Cantate Jubilo, Coro Misto da Cruz Vermelha Portuguesa, Coro Misto do Orfeão de Águeda, Grupo Coral O Espranjar da Associação Cultural Banda Nova Fermentelos, Orfeão de Barrô, Orfeão da ARCEL, Orfeão da Associação Cultural de Recardães e Orfeão do Paraíso Social de Aguada de Baixo”.

Antevê-se um grandioso espectáculo, e uma faustosa cerimónia de inauguração. Quanto aos custos, na linha da política de transparência apregoada pelo executivo, certamente, saberemos muito em breve os valores em causa, discriminados ao cêntimo. Mas não me parece que a festa, apesar de “bonita”, venha a ser barata…

Com estas constatações não pretendo pôr em causa a atribuição do nome de Manuel Alegre à Biblioteca Municipal, tanto mais que até foi uma vereadora do PSD, actual presidente da Comissão Política Concelhia do partido que, em primeira instância, propôs o nome do poeta e escritor com raízes aguedenses para dar nome a tão importante infra-estrutura cultural. O que me espanta é a ligeireza com que o actual executivo municipal despende quantias avultadas numa cerimónia destas características e, acima de tudo, num contexto político pré-eleitoral que deixa no ar um clima de acção de campanha.

Estando aberta ao público há mais de um ano, não seria possível agendar a “inauguração oficial” da Biblioteca Municipal Manuel Alegre para uma data posterior às eleições presidenciais? O próprio até poderia inaugurar a obra, já na qualidade de Presidente da República, se entretanto vencer as eleições do início de 2011… O que levará a Câmara Municipal a colocar-se em “bicos de pés”, despendendo generosamente dinheiros públicos, e “colando-se” a uma candidatura presidencial? Ou, ao invés, será que o Presidente da Câmara tem tão pouca fé na eleição de Manuel Alegre, ao ponto de achar que a realização da cerimónia após uma possível derrota eleitoral poderia perder algum “brilho”?

Penso, aliás, que esta cerimónia poderá causar alguns constrangimentos ao próprio homenageado, na medida em que tem vindo, repetidamente, a acusar o principal adversário nas próximas eleições, e actual Presidente da República, de utilizar de forma abusiva o exercício das suas funções em acções de pré-campanha eleitoral. Sentir-se-á, Manuel Alegre, confortável perante tão “oportuna” homenagem, suportada por um município governado por um dos partidos políticos que apoia a sua candidatura a Belém?

ALBERTO MARQUES

vice-presidente do PSD/Águeda

Um comentário

  1. Luís Cardoso

    Outubro 18, 2010 às 09:10

    Bom dia,
    É com algum espanto que noto nesta opinião uma certa ideia de despesismo associada aos custos da cerimónia de inauguração da biblioteca. Sei que a parte mais “faustosa” do espectáculo, nomeadamente no Cine-teatro São Pedro, à qual me ligo enquanto compositor, terá custado, em cachets de artistas cerca de um centésimo, se tanto, do que custaram os da festa do leitão ou outros eventos do género. Coros e bandas não levaram cachet, disso estou seguro.
    Não querendo comentar quaisquer questões políticas das quais desde já me desmarco, acho que este espectáculo tem no mínimo a virtude de reunir mais de 400 pessoas em palco para praticarem música, exigir uma sinergia espantosa de associações em preparações, e até se justificava só por si, sem ser preciso inauguração alguma. Tem um retorno em termos culturais que se espalha por todo o conselho, que não se mede financeiramente, mas com atenção se poderá medir economicamente. Poderá certamente verificar os gastos tidos com o executivo, enquanto membro da assembleia municipal e depois reafirmar ou não a sua opinião.
    Cumprimentos

    Responder

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.