No meu imaginário, associo a “passadeira vermelha” a cerimónias protocolares ou eventos cheios de elegância e glamour, onde se pretende dar uma grande relevância aos ilustres convidados que por ela desfilarão. Retenho na memória inúmeros momentos marcantes, desde os habituais desfiles de vaidades nos Óscares de Hollywood, ou nos Emmys, até às recepções oficiais a chefes de estado ou líderes religiosos, como o Papa ou o Dalai Lama. A “passadeira vermelha” é presença habitual, seja à saída do avião ou à porta dos palácios, atestando o respeito e, por vezes, a reverência que os dignitários merecem junto dos anfitriões. A origem da designação de “passadeira vermelha” deve-se ao facto de a sua cor, anteriormente púrpura, se obter a partir de um molusco originário do Mar Vermelho. Este molusco, espécie rara, de imediato ficou associado às classes mais elevadas, a reis e a imperadores.

Vem esta alusão à “passadeira vermelha” a propósito das famosas “vias cicláveis” com que a Câmara Municipal de Águeda resolveu presentear os habitantes da cidade. Com efeito, depois das placas metálicas embutidas no chão com o símbolo de uma bicicleta, têm surgido nas principais artérias da cidade as faixas vermelhas destinadas a estes velocípedes. Primeiro de um lado, depois do outro, em ruas mais estreitas e nas avenidas, nas rotundas, nos locais de estacionamento, enfim, o tapete vermelho vai sendo desenrolado a eito, perante a incredulidade dos munícipes que coçam a cabeça tentando entender como aquilo irá funcionar.

Para começar, as vias cicláveis parecem-me demasiado estreitas. Os ciclistas que, apesar de tudo, venham a utilizar esta aberração, terão que concentrar-se nas pedaladas, para não saírem do exíguo trilho que lhes é proporcionado. E nem pensem em ultrapassar os colegas mais lentos – não há espaço… Além disso, as imensas descontinuidades devido às passadeiras de peões, e entradas de garagens, acabam por tornar ainda mais confusa a “rota encarnada” à disposição dos ciclistas. E nas rotundas? Os ciclistas passam a ter prioridade estando na via ciclável assinalada? Se sim, antevejo o caos rodoviário; se não, então para que servem as faixas? E o que dizer da qualidade do piso agora pintado? Em alguns troços, pintou-se onde foram tapadas anteriores valas abertas nas ruas. E todos sabemos que, apesar de existir uma empresa especializada em “analisar os buracos”, as repavimentações são de péssima qualidade.

Um dos principais problemas destas pistas é o impacto que causarão ao nível do estacionamento dos automóveis. Muitos dos lugares disponíveis (já de si insuficientes) contam agora com a vistosa faixa vermelha. E agora? Como é que isto funciona? O estacionamento passa a ser proibido nestes lugares? Ou os ciclistas terão que se desviar dos veículos estacionados? E se assim for, qual a finalidade das pistas cicláveis?

Resta, ainda, a questão estética. Numa cidade, há décadas espartilhada e atrofiada pela visão ortodoxa de alguns arquitectos iluminados, o que dizem os puristas do urbanismo sobre o impacto visual destas pistas? Experimentem, por exemplo, subir a Avenida Calouste Gulbenkian, desde a rotunda do Gato Preto, e olhem para cima. A única esperança é que, mais uma vez, a tinta seja de fraca qualidade e acabe por desbotar…

Acredito que seria possível criar pistas cicláveis em zona mais apropriadas, e com dimensões adequadas. Exemplos? Há muitos: junto às margens do rio, nos Abadinhos, junto ao Estádio Municipal, no Souto do Rio, ou em ruas pedonais, só para referir locais junto à cidade. Mas também poderiam funcionar em muitas freguesias, onde existem trajectos propícios a este desporto. Numa abordagem talvez mais controversa, poder-se-ia seguir o exemplo de Viseu, onde foi criada uma “eco-pista” no antigo traçado da linha de comboio. Isto, claro, se o declínio da utilização do comboio levar ao encerramento das actuais linhas. Haverá, certamente, espaço para pistas de todos os tipos, mais ou menos radicais, mais ou menos exigentes, mas a salvo dos constantes ziguezagues aos automóveis e peões, a que, inevitavelmente, as actuais pistas conduzirão os ciclistas.

Numa assembleia municipal recente, quando questionado sobre estas “vias cicláveis”, o Presidente da Câmara respondeu que tinha havido um problema com a qualidade da tinta utilizada, e que, em breve, recomeçaria a pintura, agora com uma tinta mais adequada. O que o Presidente da Câmara não percebeu é que o estavam a questionar sobre a existência das tais “vias”, e não sobre a durabilidade da tinta utilizada. Como o regimento da Assembleia Municipal dá sempre a última palavra ao presidente do executivo, e impede o contraditório por parte dos restantes membros, o que ficou foi mais uma pergunta sobre alhos, respondida com bugalhos.

E ainda há a questão, sempre pertinente nestes tempos de conturbada discussão orçamental, dos custos desta extravagância. Quando o executivo municipal nos informar de quanto custarão estas “passadeiras vermelhas”, sempre quero ver a reacção dos munícipes. Não conheço os contornos desta adjudicação, mas reparei, por exemplo, que os “pintores” andaram a trabalhar fora de horas, e até no fim-de-semana… Não me cheira que isto fique barato…

Tenho a impressão que só mesmo o Presidente da Câmara e a mente ilustre que terá tido a colorida ideia de nos desenrolar estes tapetes vermelhos, ainda estarão convictos da sua utilidade. Por mais que tente, não consigo perceber a funcionalidade de tal “infra-estrutura”. A minha última esperança é que o tal molusco do Mar Vermelho se esconda muito bem, e que assim se esgote a matéria-prima da tinta vermelha… Acreditem que não é um desejo fácil para mim, que até sou adepto do Benfica…

ALBERTO MARQUES

vice-presidente do PSD/Águeda

Um comentário

  1. militante do PS nº 66840

    Outubro 27, 2010 às 16:21

    olha Alberto!!

    pior que a passadeira vermelha que não tarda a dar a volta á cidade, foi alguém ter-se lembrado que Manuel Alegre existia e que fez tanto por Agueda que merecia que o seu nome fosse associado á biblioteca municipal.

    parvoice de mau gosto para com alguém que sempre foi candidato a deputado pelo circulo de Coimbra.

    sem mais;
    R.A.

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