Quando o Manuel Cego da Urgueira, por volta de 1880, mandou construir um forno muito estranho e invulgar no cabeço do Junqueiro, saldou uma igualmente estranha e invulgar promessa para com a divindade e, em simultâneo, assegurou a notoriedade da Urgueira, a sua aldeia natal, para lá dos séculos seguintes.

Uma geração depois, o filho do Manuel Cego, Manuel Duarte dos Reis de sua graça, completou a obra, mandando construir a expensas suas e com a devida conivência da sua esposa Trindade Maria, uma ermida no topo oposto ao do forno da plataforma que se estende no referido cabeço do Junqueiro. Neste local, a serrania caramulana faz uma pausa nos montes e vales, estende uma manta e descansadamente admira a paisagem larga e longínqua, na sombra fresca dos sobreiros nativos e dos pinheiros semeados.

Com o aparecimento da Associação Etnográfica Os Serranos e o seu projecto socio-cultural, a reconstituição desta peculiar romaria tornou-se realidade, com a cooperação e o contentamento, não apenas da família Duarte dos Reis, mas também da freguesia de Macieira de Alcoba e de toda a comunidade serrana que aderiu maciçamente a este projecto, restituindo de novo à romaria da Urgueira a frequência e o esplendor de há um século atrás.

O forno será aquecido ininterruptamente durante 3 dias e 3 noite, sob a vigilância de Os Serranos, que acampam no local durante uma semana de trabalhos intensos e voluntários. No dia da romaria, o forno está de novo apto a cozer, devorando muita, muita lenha, mas fornecendo fornadas contínuas para responder à procura da broa que continua a não apanhar bolor e mantém todo o sortilégio para todos quantos acreditam que assim seja.

 

A FESTA DA BOROA

 

No Domingo, 23 de Agosto, depois de colocar no forno uma gigantesca boroa com cerca de 100 l de farinha, como reza a investigação do ritual de há um século atrás, segue-se a sagração religiosa com a missa campal, pelas 12 horas, em que os grupos de folclore já tomarão parte activa, ao lado do coral da comunidade de Macieira de Alcoba. Por esta altura, o Parque da Senhora da Guia vai-se enchendo, com os novos romeiros a tomar posição para a hora e o local de abrir os farnéis. Após a procissão, pelas 13 h, a boroa será colocada do forno com todo o seu ritual, para ser mais tarde distribuída pelos romeiros em pequenos nacos.

Cumprida a festa do farnel, aberto e partilhado, é chegada a hora de alimentar a alma, que nesta altura já terá digerido os rituais profanos e religiosos da manhã. São os cantadores ao desafio que costumam abrir a rivalidade e exibir o seu bairrismo sentido. Daqui até as três eiras fervilharem de música, cantares e danças não vai mais do que um fósforo em noite de ventania. E o povo de muitas terras distintas mistura-se e mistura o presente com o passado. Vê-se como nasceu o folclore e como se está a criar um autêntico folclódromo português, na pequenina Urgueira, nos confins altos do distrito de Aveiro, num canto do concelho de Águeda que resistiu ao esquecimento, com tanta teimosia serrana de reconstruir o passado.

 

A FESTA MAIOR

 

Neste festival sem palco nem aparelhagens, muito semelhante ao que a tradição popular do século XIX criou e manteve, estão presentes as regiões de Portugal. Das portas do Minho vem o Rancho das Lavradeiras da Trofa, do Douro Litoral virá o Rancho Folclórico de Paranhos, do Douro Sul virá o Grupo de Folclore de Cidacos, da Beira Litoral participará o Rancho Folclórico de Sever do Vouga, da egião vareira virá o Grupo de Folclore O Cancioneiro de Ovar e, da região do Mondego, o Rancho Folclórico e Etnográfico de Arzila.

Todos os grupos presentes são membros efectivos ou aderentes e activos da Federação do Folclore Português, envolvidos nos trabalhos de renovação e de reforço da representatividade actualmente em curso. Esta garantia adicional de qualidade é ainda reforçada pela grande motivação que os grupos cultivam e ganham quando pisam o chão da Urgueira.

No final da tarde, o sol prepara-se para se deitar, ao longe, depois de adormecer nos braços da ria de Aveiro. Por esta hora, já se cantou a despedida serrana É tão linda a minha terra, junto ao forno, unindo centenas de vozes e sete tocatas cheias de repetir e repetir e repetir, sentindo que acabam de participar num acto raro e que marca a passagem de qualquer folclorista.

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